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domingo, 18 de novembro de 2012

Amanhecer - Parte 2


AMANHECER - PARTE 2


David Arrais

                Finalmente! Depois de 4 anos e 5 filmes chega ao fim a Saga Crepúsculo. E sim, o diretor Bill Condon consegue entregar o melhor da série. O que não quer dizer,  necessariamente, que seja bom.

Depois de créditos interessantes, ligeiramente sombrios e utilizando imagens de células se misturando a sangue e imagens microscópicas de plantas, continuamos imediatamente de onde a história parou na Parte 1, com o despertar de Bella (Kristen Stewart), que agora é uma vampira. Depois de uma sequência bem construída, em que vemos a descoberta de seus novos poderes, o roteiro nos leva ao tema do triângulo amoroso Bella-Edward (Robert Pattinson)-Jacob(Taylor Lautner), agora apostando um pouco mais no humor. E felizmente alguém se manifesta contra o inprinting Jacob com um recém-nascido.

       E realmente existem momentos divertidos, como a conversa entre Jacob (Taylor Lautner) e Charlie (Billy Burke, o melhor ator da série). Essa cena, diga-se, é a ÚNICA em Jacob aparece sem camisa durante toda a projeção e mais, a única vez em toda a série que isso ocorre por um motivo aceitável dentro da trama.

        O fato de Bella ter uma filha chega ao conhecimento dos Volture, que temem que ela seja uma criança imortal, fato que já ocorreu outras vezes, quando uma criança é transformada em vampiro e, por isso, tem poderes maiores que outros vampiros, normalmente destrutivos.

A sequência em que o exemplo de uma criança desse tipo é citada tem um teor violento como nunca antes visto na série. Por conta desse temor, eles montam um grande grupo (me recuso a chamar aquilo de exército) para atacar o clã dos Cullen, que por sua vez, reúnem seus aliados para tentar evitar esse confronto.

         A sequência que ilustra o recrutamento dos aliados dos Cullen possui, curiosamente, os melhores e piores momentos do filme. Enquanto vemos surgir o personagem mais interessante de todos os cinco episódios, o tradicionalista e patriota Garrett (Lee Pace), que odeia estrangeiros, principalmente britânicos,  também somos obrigados a ver vampiros índios da Amazônia brasileira, com maquiagem (!) e roupas de índios americanos. Outro vampiro com poderes interessantes, porém incrivelmente subaproveitado é Amun (Omar Metwally).  

Nestas sequências também recebemos várias informações que nunca haviam sido tratadas nos episódios anteriores, como o autocontrole de Bella e seu poder de “escudo”.E dessa forma o roteiro se desenvolve, com várias informações que mereciam mais tratamento sendo jogadas sem maiores explicações (E a desculpa “você não leu o livro” não funciona. Cinema é cinema, livro é livro).E esquecendo outros fatos importantes: Se os vampiros não sentem frio, porque usam roupas de frio mesmo quando estão sozinhos? Porque Edward deixou de brilhar com a luz do Sol? Porque não há uma mísera cena de Carlisle em Londres, quando sua esposa falou da importância de irem até lá novamente?
      
         Já os efeitos visuais mantêm o padrão dos anteriores, oscilando sempre entre ruins e péssimos. Tanto no irritante e excessivo uso do chroma key, como nos ridículos movimentos de corrida dos vampiros. Ou também em todos os momentos em que aparecem os lobos do clã de Jacob, sempre inverossímeis. E a prometida como ”épica” sequência de batalha final, além de trôpega e mal coreografada, apresenta um desfecho no mínimo desonesto, com pouquíssimos momentos interessantes.

          No campo das atuações, infelizmente, o padrão também se mantém. O trio principal mostra sua habitual falta de talento e química. A propósito, de todo o clã dos Cullen, os únicos dignos de nota são Carslile (Peter Facinelli) e Alice (Ashley Greene). Dakota Fanning continua sendo desperdiçada e Martin Sheen, como Aro, o líder dos Volture, parece mais se divertir que atuar, soando sempre caricato. E a pequena Renesmee, além de um nome horroroso, é apenas assustadora, passando quase despercebida pelo filme.

        Concluindo: o maior alento dessa conclusão da Saga Crepúsculo é que, agrada aos fãs (pelo menos é o que se pode deduzir pelas reações da plateia) e você que não é fã não vai ficar com vontade de furar seus olhos e tímpanos ou sentir seu cérebro atrofiando até o fim da projeção.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Cosmópolis

    COSMÓPOLIS





David Arrais 
  
Escrito e dirigido por David Cronenberg, a partir do livro homônimo escrito por Don DeLillo, Cosmópolis conta a história de um dia na vida de Eric Parker (Robert Pattinson), um jovem bilionário que decide, aparentemente por capricho, cortar o cabelo na barbearia de um velho conhecido, que fica do outro lado de Manhattan. Porém, neste mesmo dia, está havendo uma enorme manifestação contra o capitalismo, e, por conta da visita do presidente americano à cidade, invariavelmente ele terá que passar pela zona de protestos. E, durante sua jornada, ainda tem que lidar com o fato de que, por um investimento errado, está perdendo toda a sua fortuna durante essa travessia e seu grupo de segurança particular descobre que existe alguém com a intenção de matá-lo.

Por conta da iniciativa de atravessar a cidade em um dia tumultuado, ele acaba tendo que realizar toda a sua rotina dentro de sua limusine. Entre suas atividades habituais estão reuniões com sócios e funcionários da empresa, encontros sexuais com prostitutas, com sua esposa e check ups médicos. 

Desde o início é possível perceber que Eric é uma pessoa extremamente dominadora, consciente do poder que possui e respeito que impõe por sua condição financeira. E também é alguém que não parece ter a menor preocupação em disfarçar o desprezo que sente pelas pessoas ao seu redor. Sem nunca permitir sequer que outra pessoa tome controle sequer de uma conversa, sempre muda de assunto, ou reverte o sentido dos diálogos quando percebe que pode ser colocado em situações fora de sua zona de conforto. Um dos momentos que melhor ilustram essa situação é a conversa entre ele e Shiner (Jay Baruchel), seu parceiro de negócios, ainda no início do filme. 

Boa parte do filme se passa dentro da limusine, que funciona como uma metáfora (nada sutil) do isolamento que Eric procura manter do resto do mundo.  Ela é totalmente equipada, possuindo conexão a internet em alta velocidade, sofisticados computadores touch screen, monitores de tv em alta definição e até mesmo um vaso sanitário, que fica escondido sob o banco. Uma vez lá dentro, ele parece esquecer completamente do que está ocorrendo em seu exterior. Mesmo quando está sendo atacado durante o protesto, ele permanece inerte, como se nada estivesse acontecendo.

Portanto, é curioso perceber que, sempre que deixa o carro, Eric se mostra um pouco mais espontâneo, mostrando-se até mesmo confuso por essa dualidade. Ao mesmo tempo que está desconfortável, ele gosta de sair de se arriscar. Como ele mesmo fala várias vezes "Detesto quando tenho que ser sensato".

Por se passar quase sempre no mesmo ambiente, o filme é quase que completamente baseado nas atuações e nos diálogos. E o desfile de grande atores é fenomenal. Juliette Binoche, como Didi Fancher, a amante "preferida" de Eric, Mihcael Chin (Phillip Nozuka), um de seus jovens "conselheiros". Curiosamente, uma das melhores cenas ocorre fora do carro. Numa perturbadora sequência de sexo, quase sem cortes, com Kendra Hays(Patricia Mckenzie), sua amante e esposa de Torval (Kevin Durand), seu chefe de segurança. 

Robert Pattinson se sai muito bem como o protagonista Eric. Não chega a atingir o brilhantismo que David Cronenberg extraiu de Viggo Mortensen, porém não faz feio de forma alguma. A desconstrução de um jovem seguro a um homem perturbado é extremamente convincente. Ele consegue criar um personagem profundo, com várias camadas, que vão sendo apresentadas aos poucos, de acordo com os acontecimentos  do dia.

Outro elemento que mostra a queda de Eric é a fotografia, juntamente com direção de arte. Nas primeiras cenas dentro do carro ela é estourada, com cores frias em exagero, chegando a soar falsa, assim como aquela fachada apresentada por Eric. A construção do ambiente da limusine, asséptico, claro e organizado, também contrasta com o ambiente em que ocorre a sequência final: imundo, sombrio, completamente bagunçado, assim como a mente do protagonista.

Infelizmente, o roteiro, apesar da trama linear, é bastante irregular, alternando momentos simples e diretos, como quando Eric é informado da morte de um amigo, e momentos com diálogos extremamente confusos, chegando a soarem demasiadamente pretensiosos, como aqueles travados na barbearia, ou no momento com Samantha Morton, ainda no interior do veículo. Não fosse por essas alternâncias, Cronenberg poderia ter realizado uma pequena obra-prima.
    
SPOILER - SPOILER - SPOILER - SPOILER - SPOILER - SPOILER SPOILER!

ATENÇÃO: NÃO LEIA O PRÓXIMO PARÁGRAFO ANTES DE ASSISTIR AO FILME!

Não poderia encerrar essa crítica sem citar a participação colossal de Paul Giamatti. Presente apenas na cena final, ele surge como um indivíduo simultaneamente grotesco, inseguro, violento, confuso, perigoso... Toda essa esse conjunto de características nos leva a crer que Eric está confrontando uma possível versão sua no futuro, em que todos os atos irresponsáveis que ele tomou neste dia acabaram por transformá-lo. O duelo de interpretações atinge seu ápice quando eles começam a trocar frases praticamente iguais, tanto em teor quanto em palavras e a sua construção. A cena é desenvolvida brilhantemente por Cronenberg, de forma quase sequencial, até o momento em que Benno revela possuir o mesmo problema na próstata que Eric, e é encerrada no momento certo, fazendo com que o expectador saia com seus neurônios (aqueles poucos que sobreviveram a toda a projeção) fervendo!