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segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

LINCOLN






LINCOLN
David Arrais

 

Escrito por Tony Kushner, a partir do livro de Doris Kearn Goodwyn, Lincoln faz um recorte minucioso na história do presidente durante a Guerra Civil, indo do fim de seu primeiro mandato até o atentado que levou à sua morte, com um enfoque em seus dramas familiares enquanto descreve o processo corrupto necessário para a aprovação da lei de abolição da escravatura nos Estados Unidos.

Com um início promissor, mostrando alguns momentos terríveis da Guerra da Secessão, o filme logo passa para uma atmosfera intimista, mostrando o protagonista (Daniel Day Lewis) conversando com soldados negros que lutam pelo exército do Sul.

Desde essa primeira cena, com um foco de luz “magicamente” focado sobre ele, é possível perceber o modo como Lincoln será retratado. É visível a preocupação em retratá-lo quase como uma entidade, sempre em planos que o valorizam, colocando-o em posição de superioridade.

O filme tem grandes alternâncias de ritmo. Por exemplo, o modo como é mostrado todo o processo de “convencimento” dos congressistas do partido democrata é bem executado, possuindo os melhores momentos da projeção, com muito dinamismo.


Já nos momentos em que retrata os dramas familiares de Lincoln, o clima vira quase novelesco, em que vários problemas antigos são repetidos à exaustão pela sua esposa Mary Todd (Sally Field). 

Infelizmente, aquele que deveria ser o clímax do filme é prejudicado pelo simples fato de sabermos o resultado final daquele processo.


Daniel Day-Lewis no entrega mais uma performance impecável. Lincoln aparece como uma figura austera, que impõe respeito pela sua postura, mais que pelo seu avantajado porte físico. Os pequenos detalhes, como modo de mexer as mãos enquanto fala, ou a forma que manuseia os óculos, além de sua inflexão de voz, sempre mansa e calma, enriquecem mais um personagem marcante de sua carreira.

Sally Field alterna entre o dramalhão novelesco e uma atuação realmente marcante. Quando ela escapa dos momentos “Helena de Manoel Carlos”, como no momento em que questiona Lincoln por um fato marcante no passado, fica justificada sua indicação ao Oscar de Atriz Coadjuvante.

David Strathairn interpreta William Seward, o principal aliado de Lincoln, porém sem precisar exibir seu talento como em outros momentos da carreira. Ao contrário de Tommy Lee Jones, que surge como um personagem ambíguo, responsável pelos poucos momentos de tensão do longa. James Spader (que volta aos cinemas depois de oito anos) surge como uma grata surpresa, como o mensageiro responsável por conseguir as assinaturas necessárias para que a lei seja aceita no congresso. 

Completando o núcleo principal, Joseph Gordon-Levitt é completamente desperdiçado, parecendo surgir como uma assinatura do item “conflito com a figura paterna”, sempre presente na carreira de Spielberg.


Algo que chama a atenção é a semelhança entre o processo de convencimento dos democratas e eventos recentes na história política brasileira, em que o presidente, e seus assessores, se utilizam de meios espúrios para a aprovação de seus projetos.


Tecnicamente o filme tem vários pecados. Apesar de uma boa fotografia, direção de arte bem executada numa perfeita recriação de época e figurinos minuciosamente caprichados, a montagem é extremamente deselegante, com cortes grosseiros, e sem ritmo, com um resultado final beirando o enfadonho.

Infelizmente, esta última produção de Steven Spielberg nem de longe faz jus à brilhante filmografia do diretor. Baseando-se quase que completamente na atuação perfeita de Daniel Day-Lewis, ele nos entrega uma obra menor, sem ritmo e que tenta mostrar o 16º presidente americano como um homem superior a todos os outros, tanto no campo político quanto no campo moral, mesmo quando suas atitudes muitas vezes mostram o contrário.

domingo, 27 de janeiro de 2013

DJANGO LIVRE



DJANGO LIVRE (Django Unchained)
David Arrais




Quentin Tarantino nunca escondeu ser fã dos Western Spaghetti de Sergio Leone, tentando sempre levar algo daquela atmosfera para seus próprios trabalhos, como ficou mais visível em Kill Bill. Logo, nada mais natural que ele dirigisse e escrevesse o seu próprio Western, mantendo, claro, todos aqueles elementos que o caracterizam: violência extrema, humor negro, politicamente incorreto nas alturas, diálogos memoráveis, vilões carismáticos e atuações marcantes.

Django Livre conta a história de um escravo chamado Django (Jamie Foxx) que é comprado e libertado pelo Dr. King Schultz (Christoph Waltz) um caçador de recompensas alemão que precisa de sua ajuda para encontrar três homens procurados pela justiça.

Depois da incrível cena em que Django é comprado, ele e Schultz continuam trabalhando juntos, construindo uma amizade forte, baseada na confiança mútua e na admiração que o mesmo sente pelo dentista, não só pela sua inteligência, mas também por conta da ojeriza que sente pela escravidão. Essa admiração mútua é perfeitamente exposta na tocante cena em que, depois de descobrir que a esposa de Django fala e tem até um nome alemão, Schultz explica a lenda de Brunhilde e decide ajudá-lo a encontrá-la.

A violência gráfica, exagerada e quase gratuita é sempre presente, com cabeças explodindo com tiros, pessoas sendo destroçadas por cachorros, fuzilamentos gratuitos e torturas psicológicas espalhadas por toda a projeção.

Um dos temas mais polêmicos retratados aqui é a escravidão, e os maus tratos que os negros sofriam nas mãos de seus senhores. Mutilações, chicotadas, humilhações.  As torturas e punições são capazes de fazer o mais frio espectador se contorcer de agonia na poltrona. É curioso ver, por exemplo, a reação das pessoas com Django montando em um cavalo (O que que esse crioulo tá fazendo nesse cavalo?) e ver que até hoje isso acontece, quando alguns veem com estranheza um negro dirigindo um carro ou usando roupas caras.

Com a chegada a fazenda de Calvin Candie (Leonardo DiCaprio), o filme muda um pouco de tom, ficando bem mais tenso do que no primeiro ato, quando eram mostradas apenas as buscas da dupla principal.

Uma das maiores marcas de Tarantino, seus diálogos ácidos e repletos de humor negro também estão sempre presentes, como na já citada cena em que ele “compra” Django, em todas as cenas em que Schultz explica porque matou algum procurado, nos confrontos verbais entre Schultz e Candie, ou deste com Stephen (Samuel L. Jackson) ou na maravilhosa cena em que há uma discussão de aspirantes a membros da Klu Klux Klan sobre sua indumentária, que chega a lembrar episódios do seriado Family Guy.

O clima de filmes setentistas se faz presente desde os créditos, longos, e o texto com fontes exageradas, além da trilha sonora obviamente inspirada (e adaptada) em, Ennio Morricone, além do excelente trabalho de fotografia e da participação de um dos maiores ícones do gênero, Franco Nero.

A direção de arte é brilhante, ao recriar as fazendas do século XIX do sul dos estados Unidos, as senzalas, e mesmo as pequenas cidades por onde a dupla de protagonistas passa, trabalhando em uníssono com o figurino que recria a época com perfeição, além de demonstrar bem a personalidade de cada personagem.

A direção de Tarantino é mais uma vez segura, conduzindo cenas de ação com a mesma qualidade com que constrói o clima de tensão crescente em seus longos diálogos. E ainda nos fornece uma elegante rima visual, quando, em momentos distintos, vemos uma explosão de sangue sobre uma flor branca. Ou quando o ponto de vista com que vemos Django depois de uma ação definidora do personagem.

As atuações variam entre corretas a espetaculares. Infelizmente, entre as corretas está a da mulher que move a trama, Brunhilde (Kerry Washington). Nem de perto ela transmite a força de personagens femininas marcantes na filmografia do diretor, como A Noiva ou Mia Wallace.

Jamie Foxx está convincente, ainda que sem o carisma de Brad Pitt ou John Travolta, como na cena em que houve a história da lenda de Brunhilde, demonstrando uma ansiedade quase infantil enquanto seu novo amigo lhe conta a história, ou no momento em que trava um duelo de olhares com Leonardo DiCaprio, num dos momentos mais tensos do longa.

No entanto, mais uma vez quem rouba a cena é Christoph Waltz. Suas inflexões de voz, seus maneirismos, o domínio do idioma e de suas nuances, todas essas características do Dr. Schultz são desfiladas na tela naturalmente, nos conquistando rapidamente desde seus primeiros minutos em cena.

Leonardo DiCaprio é uma grata surpresa. Não que seu talento ainda precise de alguma comprovação, mas por ser a primeira parceria dele com Tarantino. E ele “duela” em pé de igualdade com Waltz. Candie é um sujeito ligeiramente afeminado, de voz mansa e bons modos, o que serve para acentuar sua natureza ameaçadora quando este perde o controle.

E Samuel L. Jackson mostra todo o conforto possível em atuar mais uma vez com seu parceiro. Stephen é um escravo que acabou se tornando o braço direito de Candie em sua fazenda, sendo muitas vezes ele mesmo quem indica os castigos que os escravos da fazenda devem receber. Muitas vezes parecendo uma caricatura de um “preto velho”, sua relação com Candie se revela no momento mais tenso do filme, quando ele descobre os planos da dupla de caçadores de recompensa.

Ainda que não chegue ao nível de brilhantismo de Bastardos Inglórios ou Pulp Fiction, Django Livre é um trabalho espetacular, satisfação garantida.

sábado, 19 de janeiro de 2013

DETONA RALPH


DETONA RALPH (Wreck It Ralph) 
David Arrais

         Detona Ralph, nova animação da Disney dirigida por Rich Moore, conta a história de Ralph, o vilão do jogo de fliperama Conserta Félix, que começa a desgostar da ideia de ser vilão. Em busca de reconhecimento como um “cara legal”, ele percorre vários outros jogos, e acaba indo parar no arcade Corrida do Açúcar, onde conhece a pequena Vanellope, e acaba pondo em risco a existência dos dois videogames.

         Desde o início, é possível perceber que participaremos de uma grande viagem pelo mundo dos games, com o trecho do Mickey marinheiro todo pixelado, como nos primeiros jogos eletrônicos. A partir daí, conhecemos o nosso protagonista, e seu adversário Félix, desde a origem do seu jogo (através do vídeo de demonstração da própria máquina) até a evolução dos demais jogos ao seu redor na loja de fliperama durante 30 anos.

        Durante a noite, em um clima que mistura Toy Story e Uma Cilada para Roger Rabbit, os personagens dos jogos saem de suas máquinas e se encontram na Estação Central dos Jogos, podendo viajar de uma máquina para outro. O drama do protagonista é contado em uma curiosa sessão de um grupo de apoio, onde vilões de vários jogos, como Bowser do Super Mario Bros, um zumbi, Kano do Mortal Kombat, Zangief (não necessariamente um vilão) e M. Bison do Street Fighter, Robotnik do Sonic, o Fantasma do Pacman, contam suas desventuras e sofrimento por sua condição de vilões.

          Chama à atenção toda a construção da mitologia que envolve o mundo daquele fliperama: o medo da “população” que suas máquinas entrem em manutenção, a importância de não interferirem nos personagens controlados pelos jogadores humanos, o medo de que alguém “Vire Turbo”, um personagem sofre de pixelexia, “doença” que faz com que ele fique sofrendo panes durante o jogo, a senha para um cofre é o mais famoso código de videogames e o conceito de Retrô, tão em voga ultimamente.

          Mesmo não sendo um grande conhecedor de videogames, pude perceber dezenas de referências a jogos antigos, e mais recentes, além dos citados no “grupo de apoio”, como Call Of Duty, Halo, Super Mario Kart e também referências à cultura pop/internet (Mentos + Coca Cola Diet, quantas lambidas são necessárias para se chegar ao centro de um doce, o DJ de suma das festas é Skrillex) e até mesmo a filmes, como Alien, Superman, Wall-e e King Kong.  

         Mas, as referências a games não param nas citações. O movimento dos personagens dos jogos antigos, como do próprio Conserta Félix, são semelhantes aos dos arcades, além dos efeitos sonoros referentes aos seus movimentos.

O visual de alguns lugares, como o interior do edifício onde ocorre o jogo é sempre formado por linhas ortogonais, para dar o visual pixelado. Por tudo isso, é marcante o momento em que um personagem antigo vê alguém de um jogo de última geração e diz: “A alta definição do seu rosto é incrível”.

A trilha sonora, composta por Henry Jackman, que alterna sons do tempo dos videogames 8 bits com temas simples, conseguindo transmitir bem o sentimento de cada cena, é espetacular, contando ainda com excelentes canções como Shut Up and Drive e sugar Rush.

          Os personagens são extremamente cativantes, com suas motivações muito bem definidas. A pequena Vanellope chega a ser tão encantadora quanto a Boo de Monstros S.A., e sua relação com Ralph é convincente desde o começo. O Rei Doce também é um vilão fantástico e carismático, sem nunca soar maniqueísta.  Félix tem um ar ingênuo, frágil e quase infantil, o que acaba justificando a facilidade com que se apaixona pela oficial Calhoun, uma mulher forte e de intimidadora.

           Mas, o grande destaque fica mesmo por conta de Ralph. Carismático e tridimensional, é curioso ver seu sofrimento e a sua jornada em busca de reconhecimento e aceitação própria, como em uma das cenas mais fortes do filme, em que ele precisa usar seu “único talento” para convencer outro personagem a mudar de ideia. E ainda possui uma característica rara em animações: ele é o personagem mais divertido, deixando para os coadjuvantes o papel de “escada” para as piadas.

           Divertido na medida certa, alternando excelentes momentos dramáticos (o ápice do bullying que Vanellope sofre das outras corredoras é tão agressivo quanto das irmãs da Cinderela), Detona Ralph é mais uma grande produção Disney, assinada com todo o talento do gênio John Lasseter, podendo figurar em pé de igualdade com outros grandes clássicos do estúdio.              


P.S. 1: A cena dos créditos é fantástica, mostrando Ralph e Vanellope passando por vários jogos como Wolf, Street Fighter, Doom e outros que a minha ignorância no assunto não permitiu idenitificar.

P.S. 2: Por não haver cópias legendadas em Fortaleza, tive que assistir a versão dublada. O trabalho é fraquíssimo, quase nos tirando a atenção do que está acontecendo na tela. Fiquei curioso para ver o trabalho de John C. Reilly, Sarah Silverman, Jack McBrayer e Jane Lynch na versão original.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

A VIAGEM


A VIAGEM (Cloud Atlas)
David Arrais

         Os irmãos Wachowski ganharam sua merecida notoriedade depois de mudarem para sempre as produções de ficção científica com a trilogia Matrix. Desde então, diversificaram bastante suas produções, como V de Vingança e Speed Racer, voltando apenas agora ao gênero que os consagrou com A Viagem, tendo sido roteirizado e dirigido por Lana e Andy Wachowski e Tom Tykwer, a partir do livro de David Mitchell.

        Começando com um velho, com o rosto cheio de cicatrizes (Tom Hanks), contando uma história, o filme rapidamente se divide em 6 subtramas, cada uma em uma época e locais diferentes: no século XIX, 1936, 1973, 2144 e 2300, passando por EUA, Inglaterra, Escócia, Coréia do Sul.

Conhecemos, no meio do século XIX, Adam Ewing (Jim Sturgess), jovem advogado, casado com Tilda (Doona Bae), filha de Haskel Moore (Hugo Weaving, parceiro de longa data dos irmãos), que por sua vez é casado com Madame Horrox (Susan Sarandon) e grande amigo do Reverendo Giles Horrox (Hugh Grant). No ano de 1936, somos apresentados a Robert Frobisher (Bem Whishaw), um jovem músico homossexual, que tem um caso com Rufus Sixmith (James D’arcy) e sonha em trabalhar com Vyvyan Ayrs (Jim Broadbent), velho músico, casado com Jocasta Ayrs (Halle Berry) para compor a grande sinfonia Cloud Atlas. A medida que o tempo vai avançando, vamos conhecendo novas situações e passando por todas as épocas contempladas pelo história.

Extendendo a filosofia de boteco e encheção de linguiça a níveis estratosféricos, acompanhamos discussões complexas, como o tratamento às minorias (negros, homossexuais, idosos) e mazelas sociais paralelamente a discussões transcendentais (com a profundidade de um pires) sobre o sentido da vida e o papel de cada membro da sociedade e momentos cômicos, que, apesar de realmente divertidos, nada acrescentam à narrativa.

Algumas questões levantadas pelo filme nunca ficam bem explicadas. Sim, houve uma revolução, desencadeada por um abuso de um cliente a uma androide, mas nunca se sabe como ela atingiu tal escala e como gerou os resultados que vemos no futuro. A propósito, toda a sequência que envolve Jim Broadbent nos dias atuais é completamente desnecessária a trama, exceto pelo fato de vermos Hugo Weaving interpretando uma enfermeira grosseira e musculosa ou Tom Hanks como um arrogante e violento escritor. Desse modo, a constante alternância das tramas acaba se tornando por demais confusa, prejudicando a sua compreensão. 

Dito isto, é necessário enaltecer o brilhante trabalho da equipe de maquiagem de A Viagem. Em todas as subtramas, o elenco é o mesmo, ou seja, vemos Jim Sturgess e Hugh Grant, atores britânicos, interpretando coreanos, ao mesmo tempo em que temos Doona Bae, uma coreana, como uma aristocrata filha de um mercador de escravos americano.

Logicamente, o esmero visual não funcionaria não fossem ótimas atuações. Hugo Weaving se desdobra entre o demônio Old Georgie e o assassino de aluguel nos anos 70, ainda mantendo sua inflexão de voz marcante quando necessário, assim como Susan Sarandon, que vai de xamã do século XXIV ao papel de jovem senhora no século XXI com a mesma desenvoltura. Jim Sturgess mostra-se seguro em todos os seus momentos, e Jim Broadbent dá um show a parte, abusando de seu talento cômico, porém mostrando que também pode ser ameaçador quando preciso. Tom Hanks chega a ser caricato em vários momentos, mostrando que está se divertindo horrores com os truques visuais, mas mostra porque é um dos melhores atores de Hollywood nos últimos 30 anos, especialmente nas sequências no ano 2300. Mas a maior surpresa é Hugh Grant, esbanjando um talento surpreendente (talvez por estar fora de uma comédia romântica) em todos os seus personagens. Halle Berry não tem grandes momentos, mas atua em pé de igualdade com todos os outros.

Tecnicamente, como de costume nas produções dos irmãos, o filme é impecável, como efeitos visuais trabalhando alinhados com efeitos práticos e de maquiagem, sem nunca chamarem mais atenção do que o necessário, o que é sempre positivo. A fotografia mostra-se competente, conseguindo criar a atmosfera de cada época com perfeição, assim como a direção de arte riquíssima em detalhes, como nas lanchonetes sul-coreanas de 2144, as cabanas tribais de 2300 ou o navio negreiro do século XIX.

Talvez se não estivessem tão convencidos de sua grandiosidade e diminuíssem uns 40 minutos de projeção, os Irmãos Wachowski tivessem conseguido realizar outra obra prima. Infelizmente, fizeram um bom filme, mas enfadonho, confuso e pretensioso como a peça musical que lhe empresta o título durante a estória, cujo autor afirmou ser, a maior da história.
               
                

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

As Aventuras de Pi


AS AVENTURAS DE PI (The Life Of Pi)
David Arrais

                As Aventuras de Pi, nova produção dirigida por Ang Lee e escrito por David Magee, a partir do romance de Yann Martel, mostra o relato de Pi (Irrfan Khan) a um escritor canadense (Rafe Spall), de como sobreviveu ao naufrágio do navio que levava os animais do zoológico de sua pai da Índia para o Canadá, quando ainda era adolescente. O que gerou esse encontro foi uma promessa de ouvir uma história que lhe “faria acreditar em Deus”.

                Pi, apelido dado a si mesmo por Piscine Patel (a explicação de sua tentativa de escapar do bullying gerado pelo trocadilho do seu nome é engraçadíssima), é um jovem curioso e inteligente, que além do interesse por música e animais, era seguidor de três religiões: Catolicismo, Hinduísmo e Islamismo. Por conta da crise econômica na Índia, seu pai se vê obrigado a iniciar vida nova no Canadá, tendo que vender todos os animais do zoológico, enviando-os de navio para a América do Norte.

No entanto, durante a travessia, ocorre um naufrágio, e Pi fica à deriva no mar, em um bote salva-vidas, com mais quatro sobreviventes inusitados: Richard Parker, o tigre de Bengala do zoológico, Suco de Laranja, um Orangotango, além de uma zebra (que quebrou a pata na queda) e uma hiena. A partir daí, começa uma viagem em busca de terra, além de uma grande jornada de autoconhecimento.

A fim de evitar a monotonia, o filme sempre alterna momentos da entrevista de Pi ao escritor com as passagens da travessia (mais de dois terços do filme se passam no barco, com apenas Pi e Richard Parker). Dessa forma, o ritmo é sempre contínuo, com todas as cenas bem desenvolvidas, mesmo aquelas mais lentas, com explicações orgânicas para toda a engenhosidade de Pi e as interrelações dos náufragos.

A atuação de Suraj Sharma, que interpreta Pi durante a travessia, é marcante, conseguindo segurar o filme praticamente sozinho, atingindo o grande ápice durante uma tempestade, em que ele contesta todas as suas divindades.

O brilhantismo da fotografia e da direção de arte é um caso a parte. Algumas cenas, como o salto da baleia no escuro, a sequência com os peixes voadores, o nascer do Sol durante uma calmaria, a ilha com forma humana, ou o momento em que Pi vê o navio completamente submerso, são dignas de figurarem como quadros nas paredes de um museu. Outro aspecto que chama a atenção é o uso das cores: nas passagens na Índia e no mar são sempre repletas de cores, quentes e fortes, em contraponto a casa de Pi no presente, com cores sóbrias e neutras.

O uso da fotografia 3D é fundamental para a experiência. A imersão visual e profundidade de campo complementam a narrativa, ajudando a nos colocar completamente naquele ambiente. Também existem interessantes rimas visuais, como o ponto de vista de Pi de dentro da piscina e de dentro do mar. Os efeitos visuais são incrivelmente reais e convincentes, como os animais no bote salva-vidas, totalmente digitais, e as cenas do naufrágio.

A história é repleta de metáforas e simbologias, como a visão divina da água (do ponto de vista hindu), o desprendimento do espírito selvagem de Pi, a ilha que prega a necessidade de não nos acomodarmos depois de atingirmos um objetivo, os confrontos entre os animais e mesmo o nome do tigre, Richard Parker, é um nome “tradicional” na história e literatura para náufragos, já tendo sido utilizado por autores como Edgar Allan Poe e Samuel Taylor Coleridge, e claro, o próprio naufrágio, que levou toda a vida de Pi.

Uma ideia tão inusitada poderia facilmente ultrapassar o limite e cair no ridículo, ou acabar se tornando monótono e aborrecido. Mas, nas mãos de um artista com tanta sensibilidade como Ang Lee, acaba por se tornar uma grande obra, que ainda oferece uma interessante e inovadora sobre as religiões, que, se não lhe fizer acreditar em Deus, vai pelo menos lhe dar uma nova perspectiva sobre o assunto e lhe ensinará a respeitar àqueles que seguem alguma religião. 

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

O HOBBIT – UMA JORNADA INESPERADA


O HOBBIT – UMA JORNADA INESPERADA
David Arrais


     Em Dezembro de 2001, Peter Jackson entrava para a história do Cinema, ao levar um dos livros mais importantes da história, O Senhor dos Anéis para as telas, tarefa considerada por muitos, impossível. Onze anos e dezessete prêmios Oscars (pela trilogia completa) depois, ele nos leva de volta à Terra-Média para contar os eventos que levaram àquela história.

     Escrito e dirigido por Peter Jackson (Fran Walsh, PhilippaBoyens e Guillermo Del Toro também participaram do roteiro), O Hobbit, adaptação do livro homônimo escrito por J.R.R.Tolkien, conta a história de como Bilbo Baggins (Martin Freeman/Ian Holm) entrou para a comitiva do Rei Anão Thorin Escudo de Carvalho (Richard Armitage) e seus 12 anões, após conhecer Gandalf (Sir Ian McKellen) e então partiu para uma aventura buscando derrotar o dragão Smaug, que havia tomado a cidade histórica dos anões, Erebor.

     Desde o início da projeção, fica perceptível, pela mudança na cor dos letreiros das produtoras de azul para amarelo, que o clima da obra será um tanto mais leve que da trilogia anterior. Em um prólogo narrado por Bilbo, nos momentos imediatamente anteriores ao início de O Senhor dos Anéis, somos levados a Erebor, reino de Thror, no período glorioso da era dos anões. Ele conta toda a história daquela cidade, descreve com detalhes os talentos e o gosto por tesouros dos anões, explicando também a origem da rusga entre os anões e os Elfos.

     Depois de ser escolhido por Gandalf para completar a comitiva, ele recebe a visita de todos os outros membros, os anões Balin, Dwalin, Fili, Kili, Óin, Glóin, Bifur, Bofur, Bombur, Ori, Nori, Dori e o líder da expedição, Thorin Escudo de Carvalho.

     Todos os anões são apresentados de forma natural. Aos poucos são introduzidos aqueles personagens, conhecendo facilmente suas características, as relações internas de afinidade e laços familiares. Por exemplo: ao contar a história de Thorin, é perceptível que Balin está na comitiva por sua sabedoria e fidelidade, mais do que pela sua contribuição física.

     Outro aspecto importante da narrativa é o cuidado ao apresentar novos fatos. Nenhuma informação é jogada de forma aleatória, na tentativa de não deixar pontas soltas. Esse cuidado é fundamental, pois, trata-se da primeira parte de uma série de três filmes (apesar de ser apenas um livro, ele foi dividido em três filmes), várias histórias paralelas são contadas, além de dezenas de personagens que aparecem ao longo da trama. Dessa forma, alguns fatos e personagens citados aqui, são apenas o preparativo para os próximos filmes, como as aranhas gigantes ou o Necromante, ou mesmo mago Radagast, o Castanho (Sylvester
McCoy).

     Existe também uma preocupação maior em citar eventos importantes da mitologia da Terra-Média, como a fortaleza de Dol Guldur, a aranha gigante Ungoliant, os altos elfos de Gondolin, e a explicação da origem das armas encontradas na caverna dos Trolls.

     Como não poderia deixar de ser, o trio composto por Thorin, Bilbo e Gandalf é o mais marcante. As cenas entre eles são sempre profundas, mas de formas diferentes. Thorin é um anão orgulhoso, quase arrogante, forte, que impõe respeito pela sua presença intimidadora, mas ao mesmo tempo amargurado e desconfiado. Bilbo é um hobbit tímido, que sempre procura agradar, mas que por muitas vezes também mostra ter seu orgulho, na medida em que começa a compreender seu papel e importância para a missão, e dentro da comitiva. E é interessante perceber a forma como vão se estabelecendo as relações de cuidado, e até mesmo de carinho, dos anões com ele.

     Gandalf tem a mesma função que tinha na Sociedade do Anel, como a voz da razão e conselheiro, mas também um guerreiro valoroso. No entanto, é curioso descobrir como ele era antes daquela história. Aqui ele ainda se mostra inseguro em alguns momentos, como quando fala com Galadriel (Cate Blanchet), Saruman (Christopher Lee) ou mesmo Elrond (Hugo Weaving) e ainda demonstra alguns momentos de ternura, ao brincar com os anões enquanto organiza a casa de Bilbo, ou ao participar de apostas com eles.

     Outro personagem de destaque é Radagast, o Castanho. Apesar da aparência repugnante, com sua roupa composta de peles ressecadas de animais, e um ninho de pássaro, repleto de excrementos na cabeça, ele mostra ser um mago poderoso, conhecedor da fauna e flora da Terra-média. Seu visual parece uma mistura de mendigo com hippie, além de seu jeito ligeiramente tresloucado de falar, como se sempre quisesse dizer milhões de coisas ao mesmo tempo. Mas ele também consegue soar ameaçador quando necessário, como no momento em que discute com Gandalf sobre a presença do Necromante em Dol Guldur.

     Tecnicamente o filme beira a perfeição. A fotografia consegue criar as atmosferas com perfeição, variando das cores do Condado à escuridão e o ouro das minas dos anões, passando pela atmosfera sombria de dolGuldur e da floresta de Radagast, passando pela austeridade de Rivendell. Os planos abertos, mostrando todas as paisagens deslumbrantes da Nova Zelândia são de tirar o fôlego. Os jogos de câmera para mostrar a interação entre os anões (interpretados por atores de estatura mediana) e Gandalf nos faz crer que realmente existe aquela diferença de porte físico.

     A Direção de Arte é digna de aplausos. Seja na Caverna dos Goblins, no interior de Erebor, às pilhas de tesouros do Rei Thrain ou a reapresentação de Rivendell. A cabana de Radagast, feita de cascas de troncos de árvores também chama a atenção. A preocupação com os detalhes é quase inacreditável, indo desde a fivela da mochila de Bilbo às impressionantes armaduras dos anões, ou o design das espadas, escudos e machados.

     Os efeitos visuais são de cair o queixo. Ainda que torne-se visível o uso do chroma key em alguns momentos, é impossível não se impressionar com as milhares de criaturas em CG, como os Trolls, que aqui aparecem mais “humanizados”, conversando com os anões, os Goblins, especialmente o seu Rei, os wargs ou os coelhos de Radagast, além das cenas de batalha em Moria e em Erebor. Também ficam visíveis as participações de Del Toro no desenvolvimento de algumas criaturas, como o Orc Albino, o rei dos Goblins, ou o pequeno goblin em uma cesta em certo momento, dentro da caverna.

     Porém, o personagem momento mais esperado do filme, atinge todas as expectativas com louvor. Gollum é, mais uma vez, a criatura em CG mais perfeita do cinema. Andy Serkis consegue mais uma performance “virtual” acima de qualquer crítica. Ele é mais ameaçador que em o Senhor dos Anéis, e o conflito interno entre Gollum e Smeagol é ainda mais presente e assustador. As pequenas nuances, como os olhos, sobrancelhas, inflexão da voz, pequenos movimentos rápidos são mais marcantes que em muitos atores “reais”. O sofrimento daquela criatura é quase tangível e ainda é perceptível a preocupação em mostrar as mudanças físicas, ainda que sutis, que se abateram sobre ele até o Senhor dos Anéis. Sua pele é mais pálida e seu corpo mais musculoso, já que ele tem mais facilidade de se alimentar em sua caverna.

     O uso do 3D colabora bastante para criar a profundidade visual, além de potencializar as emoções nas cenas de ação, especialmente nas cenas de batalha, como na caverna dos Goblins, ou na luta entre os Gigantes na montanha, mas não atinge o brilhantismo de outras obras, como A Invenção de Hugo Cabret ou Avatar. 

     A trilha sonora é simplesmente impecável! Além de reaproveitar temas que já se tornaram clássicos, como dos hobbits, do Um Anel, das águias, de Gollum e de Rivendell, Howard Shore ainda nos brinda com um tema tão marcante quanto, a partir da canção dos anões, coroando o clima perfeito criado por Peter Jackson.

     Mesmo não tendo a mesma atmosfera e escala de O Senhor dos Anéis, O Hobbit ainda é um filme espetacular. Atuações marcantes, grandes efeitos visuais e um roteiro que se preocupou mais em respeitar o material original. As alterações deram mais profundidade a alguns momentos e inseriram personagens que ajudam a amarrar algumas pontas do livro.

     Caso mantenha o mesmo nível nos próximos dois filmes, será possível afirmar que se trata de um caso raro em que a adaptação acabou melhor que o original.

     E, para os leitores do blog, é fácil perceber que tenho uma forte ligação emocional com a trilogia original da Terra-Média. Então, revisitar o Condado, Rivendell (o sorriso de Bilbo ao ver a cidade dos elfos pela primeira vez foi exatamente igual ao meu, ao ser levado de volta àquele lugar tão especial), e demais paisagens da Terra-Média, além de personagens e seres tão marcantes, como Bilbo, Gandalf, Frodo, Gollum, Elrond, Galadriel, as águias gigantes, trolls, anões, orcs, goblins e até mesmo alguns hobbits, que mesmo sem terem seus nomes sequer citados, permanecem em nossa memória, foi uma experiência emocionante e singular.            

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

A Origem dos Guardiões


A ORIGEM DOS GUARDIÕES (Rise of the Guardians)
David Arrais

Depois de “filmes” como A Garota da Capa Vermelha, A Branca de Neve e o Caçador e A Fera, sempre que alguém fala em reinvenção de personagens infantis ou de contos de fada, o medo de que ocorra mais uma “Crepusculação” vem à tona em doses cavalares.

Felizmente, a nova animação da Dreamworks, A Origem dos Guardiões além de um divertidíssimo conto de fadas, nos leva também a questionamentos maiores, como “Qual o nosso lugar no mundo”, sem nunca perder o ritmo e o clima fantasioso.

Neste filme, primeiro trabalho do diretor Peter Samsey para o cinema, os personagens das grandes mitologias infantis, Papai Noel, Coelho da Páscoa, Fada do Dente e Sandman (entidade responsável pelos sonhos, sem equivalente ou relevância na cultura brasileira) precisam da ajuda de um novo guardião, Jack Frost, para enfrentar o Bicho Papão, que quer causar a descrença das crianças nesses seres, na época da Páscoa.

          A caracterização dos Guardiões é muito criativa, fugindo do estereótipo que existe no imaginário popular. Papai Noel é um homem forte, tatuado, quase intimidador, que conta com a ajuda de Yetis e dos elfos na fábrica de brinquedos. A Fada do Dente é uma workaholic, sempre preocupada com o trabalho das fadinhas em seus depósitos. O Coelho da Páscoa é um guerreiro musculoso, valente e sem papas na língua, responsável pelo mundo encantado onde são feitos os ovos de páscoa. A sua falta de tato também acaba por criar conflitos com quase todos os guardiões. Sandman tem feições infantis, sendo composto da mesma areia que utiliza para construir os sonhos.

      Jack, além de protagonista, também é o personagem mais interessante e complexo. Ele é o responsável pelo inverno e se é feliz com isso, porém, não se sente completo. Primeiro por não ser reconhecido pelas crianças como os demais, e também por não entender suas motivações. Os motivos que o levaram a assumir aquela posição, até se tornar um guardião.

         Já o Bicho Papão acaba por se tornar um vilão igualmente interessante, com motivações intensas, palpáveis, familiares, o que gera uma identificação com o público. Os seus confrontos com Jack são sempre intensos, tanto de forma física como verbal, pois os dois dividem dramas pessoais semelhantes.

      O desenvolvimento da história segue sempre sem perder o ritmo, mesmo em momentos com muitos diálogos, alternando o clima leve de fantasia com momentos tensos, mas também com inserções cômicas, como a transformação do Coelho da Páscoa, o trabalho nem sempre reconhecido de um dos Yetis, e os momentos em que o Sandman, que não fala, perde a paciência por não receber a devida atenção, ou a corrida pelos dentes, que culmina na divertidíssima briga pelo dente de Jamie.

     Jamie, inclusive, é o principal dos personagens humanos, que são sempre crianças, e possui participação fundamental no terceiro ato, uma vez perpetuação da crença infantil é fundamental para a existência dos Guardiões.

        O filme ainda conta com citações sutis de grandes filmes como Star Wars (o momento em que o trenó do Papai Noel chega à terra da Fada do Dente é muito parecida com a chegada da Millenium Falcon a Alderaan), O Senhor dos Anéis, Hércules (a fisionomia do bicho Papão é semelhante à de Hades) entre outros. A Direção de Arte realiza um trabalho fantástico, com a construção dos mundos mágicos liderados por cada guardião. Os efeitos 3D são grandiosos, não sendo usados apenas para arremessar objetos no espectador, mas conferem a emoção e profundidade necessária a cada cena. A trilha sonora de Alexandre Desplat é incrível, construindo um tema marcante (como eu não via desde Os Incríveis) que se repete sem ser monótono, variando de ritmo de acordo com a emoção que é retratada em cada cena.

Infelizmente, nem tudo são flores. O filme possui dois furos no roteiro, sendo que um deles prejudica bastante o desfecho da trama, com o reaparecimento de um personagem sem nenhuma explicação.

          Mas, apesar desses problemas, não nada que prejudique a mensagem que o filme quer passar: A melhor maneira de sermos felizes é descobrirmos a nossa função no mundo, e aprendermos a aceitá-la.  

P.S.: Quem me conhece, sabe o que penso sobre dublagem, mas tenho que dar o braço a torcer. O trabalho de dublagem é simplesmente sensacional.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

O Homem da Máfia

O HOMEM DA MÁFIA
David Arrais


O Homem da máfia conta a história de um acerto de contas entre criminosos. Depois que ladrões “amadores”, a mando de Johnny Amato, o Esquilo (Vincent Curatola) fazem um assalto a um jogo de cartas clandestino, as suspeitas caem sobre Markie Trattman (Ray Liotta), dono do lugar onde ocorriam os encontros, que já havia feito algo parecido no passado.  Diante disso, Dillon (Sam Shepard) manda um homem de confiança (Richard Jenkins) procurar por Jackie Cogan (Brad Pitt), um mercenário, especializado em resolver esse tipo de “problema”.

Escrito e dirigido por Andrew Dominik, o filme oscila entre bons e maus momentos, infelizmente se demorando mais nos maus. Apesar de ter uma estrutura coesa, o roteiro acaba por tornar-se enfadonho, sem ritmo, exagerando em diálogos longos, chegando a soar pretensioso em diversos momentos. E chega a ser curioso o fato de o mesmo roteiro ter excelentes confrontos baseados apenas em diálogos, extremamente tensos.

Outro ponto alto do roteiro é o modo como é mostrada a passagem do tempo é inteligente e orgânica, explicando desde o início como começou a crise econômica de 2008, com discursos reais do então senador Barack Obama e do presidente George W. Bush até a eleição do candidato democrata. Com isso, é sempre feito um contraponto com o impacto que aquele golpe teve na microeconomia da organização criminosa.

Tecnicamente, é uma obra muito bem realizada. A fotografia utiliza sempre cores neutras e sombrias, enaltecendo o clima tenso da vida daquelas pessoas. A trilha sonora também é competente, sendo utilizada em poucos momentos, sempre reforçando os pontos de tensão da trama.

Algumas cenas são visualmente espetaculares, como um dos atentados, que apesar do uso um pouco exagerado de câmera lenta, mostra-se bastante criativa, ou o espancamento de um dos personagens, assustadoramente realista.   

Todas as atuações são dignas de elogio. Desde Scoot McNairy e Ben Mendelsohn, que interpretam os jovens ladrões amadores, a Richard Jenkins que está seguro e competente (como sempre) como o Motorista que é o contato de Cogan. James Gandolfini poderia ser o ator de maior destaque do elenco, não fosse por um pequeno detalhe: Seu personagem, Mickey, que é bastante interessante, diga-se, é completamente desnecessário ao desenvolvimento do filme. Já Ray Liotta consegue entregar uma performance brilhante, ainda que seu personagem não tenha tanto destaque.

Infelizmente, outra grande decepção é Brad Pitt. Parecendo estar sempre no piloto automático, ele não convence como um mercenário frio e ameaçador, parecendo alheio ao que está acontecendo a sua volta. As únicas exceções são a sequência que envolve a última execução e acena final no bar.

E esta é a grande sensação ao fim de O Homem da Máfia. Decepção. Uma boa ideia, ótimos personagens, direção competente, mas de cenas isoladas, que, ao serem montadas, fizeram o filme parecer durar três vezes mais do que realmente dura. Ou deveria durar. 

domingo, 18 de novembro de 2012

Amanhecer - Parte 2


AMANHECER - PARTE 2


David Arrais

                Finalmente! Depois de 4 anos e 5 filmes chega ao fim a Saga Crepúsculo. E sim, o diretor Bill Condon consegue entregar o melhor da série. O que não quer dizer,  necessariamente, que seja bom.

Depois de créditos interessantes, ligeiramente sombrios e utilizando imagens de células se misturando a sangue e imagens microscópicas de plantas, continuamos imediatamente de onde a história parou na Parte 1, com o despertar de Bella (Kristen Stewart), que agora é uma vampira. Depois de uma sequência bem construída, em que vemos a descoberta de seus novos poderes, o roteiro nos leva ao tema do triângulo amoroso Bella-Edward (Robert Pattinson)-Jacob(Taylor Lautner), agora apostando um pouco mais no humor. E felizmente alguém se manifesta contra o inprinting Jacob com um recém-nascido.

       E realmente existem momentos divertidos, como a conversa entre Jacob (Taylor Lautner) e Charlie (Billy Burke, o melhor ator da série). Essa cena, diga-se, é a ÚNICA em Jacob aparece sem camisa durante toda a projeção e mais, a única vez em toda a série que isso ocorre por um motivo aceitável dentro da trama.

        O fato de Bella ter uma filha chega ao conhecimento dos Volture, que temem que ela seja uma criança imortal, fato que já ocorreu outras vezes, quando uma criança é transformada em vampiro e, por isso, tem poderes maiores que outros vampiros, normalmente destrutivos.

A sequência em que o exemplo de uma criança desse tipo é citada tem um teor violento como nunca antes visto na série. Por conta desse temor, eles montam um grande grupo (me recuso a chamar aquilo de exército) para atacar o clã dos Cullen, que por sua vez, reúnem seus aliados para tentar evitar esse confronto.

         A sequência que ilustra o recrutamento dos aliados dos Cullen possui, curiosamente, os melhores e piores momentos do filme. Enquanto vemos surgir o personagem mais interessante de todos os cinco episódios, o tradicionalista e patriota Garrett (Lee Pace), que odeia estrangeiros, principalmente britânicos,  também somos obrigados a ver vampiros índios da Amazônia brasileira, com maquiagem (!) e roupas de índios americanos. Outro vampiro com poderes interessantes, porém incrivelmente subaproveitado é Amun (Omar Metwally).  

Nestas sequências também recebemos várias informações que nunca haviam sido tratadas nos episódios anteriores, como o autocontrole de Bella e seu poder de “escudo”.E dessa forma o roteiro se desenvolve, com várias informações que mereciam mais tratamento sendo jogadas sem maiores explicações (E a desculpa “você não leu o livro” não funciona. Cinema é cinema, livro é livro).E esquecendo outros fatos importantes: Se os vampiros não sentem frio, porque usam roupas de frio mesmo quando estão sozinhos? Porque Edward deixou de brilhar com a luz do Sol? Porque não há uma mísera cena de Carlisle em Londres, quando sua esposa falou da importância de irem até lá novamente?
      
         Já os efeitos visuais mantêm o padrão dos anteriores, oscilando sempre entre ruins e péssimos. Tanto no irritante e excessivo uso do chroma key, como nos ridículos movimentos de corrida dos vampiros. Ou também em todos os momentos em que aparecem os lobos do clã de Jacob, sempre inverossímeis. E a prometida como ”épica” sequência de batalha final, além de trôpega e mal coreografada, apresenta um desfecho no mínimo desonesto, com pouquíssimos momentos interessantes.

          No campo das atuações, infelizmente, o padrão também se mantém. O trio principal mostra sua habitual falta de talento e química. A propósito, de todo o clã dos Cullen, os únicos dignos de nota são Carslile (Peter Facinelli) e Alice (Ashley Greene). Dakota Fanning continua sendo desperdiçada e Martin Sheen, como Aro, o líder dos Volture, parece mais se divertir que atuar, soando sempre caricato. E a pequena Renesmee, além de um nome horroroso, é apenas assustadora, passando quase despercebida pelo filme.

        Concluindo: o maior alento dessa conclusão da Saga Crepúsculo é que, agrada aos fãs (pelo menos é o que se pode deduzir pelas reações da plateia) e você que não é fã não vai ficar com vontade de furar seus olhos e tímpanos ou sentir seu cérebro atrofiando até o fim da projeção.

ARGO


ARGO




David Arrais

         Argo é a terceira incursão de Ben Affleck como diretor. Depois de colecionar boas críticas com Atração Perigosa (valeu tradutores!) e Medo da Verdade (valeu de novo!), ele, ao lado do roteirista Chris Terrio, sai de Boston, e mergulha na recriação de um fato histórico dos anos 70, a Revolução Islâmica no Irã, indo mais especificamente a invasão da Embaixada Americana em Teerã no final de 1979.
Um interessante prólogo, com o uso de páginas de quadrinhos mescladas a imagens reais, conta a história do Irã, desde a Pérsia, até a chegada ao poder do aiatolá Khomeini, passando pela chegada ao poder do Primeiro Ministro Mohammed Mossadegh e a nacionalização de empresas de petróleo e o asilo político oferecido ao xá Mohammad Reza Pahlevi pelo governo americano. Em retaliação, a embaixada americana é atacada por manifestantes iranianos, que fazem dezenas de reféns. Porém, seis funcionários conseguiram refúgio na embaixada canadense, à espera de uma atitude de seu governo.

Diante disso, o agente Tony Mendez (Ben Affleck, com uma atuação competentíssima, fugindo do estigma de galã) leva ao seu superior Jack O’Donnell (Bryan Cranston, fantástico, finalmente interpretando um personagem a altura de seu talento) a ideia de simular a produção de um filme de ficção científica, que usaria locações naquele país, para poder enviar agentes, disfarçados de canadenses (o Canadá possuía boas relações diplomáticas com o Irã), para conseguir levá-los de volta à América.

A partir da aceitação desse plano pelas agências, depois de alguma resistência, tem início o processo de produção do Argo. Tony procura por John Chambers (John Goodman), o gênio da maquiagem responsável por, entre outros, O Planeta dos Macacos, que o apresenta ao desbocado produtor Lester Siegel (Alan Arkin, também incrível) para dar credibilidade ao plano. Também são feitas todas as fases de pré-produção, como escolha do elenco, storyboards, testes de figurino, lançamento oficial, etc.

Todos os seis reféns também têm atuação digna de nota. A química entre eles é perfeita, sempre nos fazendo crer que aquelas pessoas realmente estão há semanas sem por os pés pra fora de casa, constantemente assustados, até o momento em que são informados de como ocorrerá o resgate. Neste momento, o filme ganha contornos de um heist movie (filmes “de assalto”), onde cada um tem seu papel definido e começa a se preparar para a ação.

A recriação de época é eficiente, com os figurinos, penteados, além da competência da direção de arte, com o uso de telefones, letreiros, carros, bebidas e demais elementos de cena que ajudam a criar a atmosfera setentista da história. Essa recriação acontece desde o início da projeção, com o uso do logo da Warner daquele período no início da projeção.

A direção de Affleck, juntamente com a montagem, é bastante competente e segura, sempre conseguindo criar excelentes momentos de tensão, como na passagem pelo mercado de Teerã ou as cenas no aeroporto.

Também é interessante a forma como são retratadas as ações dos iranianos, como as torturas psicológicas, o uso de crianças no trabalho e a incrível veracidade conferida à sequência de invasão da embaixada americana.

O filme também faz uso de metalinguagem em alguns pontos, como quando informações são “datilografadas” na tela, e o som das teclas lembram tiros de um pelotão de fuzilamento, ou quando alguém avisa para Tony: “Ninguém vira diretor da noite para o dia”.

Apesar de sempre tentar se manter imparcial, em termos políticos, sem querer mostrar mocinhos ou bandidos, o roteiro falha em alguns pontos, como na sequência em que os soldados iranianos ficam maravilhados como crianças ao serem presenteados com os storyboards de Argo.

Infelizmente, na sequência final, a segurança de Affleck parece ter sido um pouco abalada, pois chega a incomodar o uso de fotos da época ao lado de imagens vistas ao longo do filme, como querendo nos mostrar que o trabalho foi realmente bem feito. Desnecessário, pois, acabamos de passar duas horas grudados nas cadeiras, como se estivéssemos assistindo a todos aqueles fatos ao vivo pela TV.  

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

007 OPERAÇÃO SKYFALL


007 OPERAÇÃO SKYFALL



David Arrais

                O ano de 2012 marca os 50 anos do agente secreto mais famoso do cinema. Para esta celebração, o diretor Sam Mendes foi convidado para comandar a nova aventura, escrita por John Logan, Robert Wade e Neal Purvis, que discute a necessidade e as funções de agentes secretos nos dias atuais.

                A história se inicia com James Bond (Daniel Craig) e Eve (Naomie Harris) perseguindo um espião que roubou um HD que contém a identidade de todos os agentes do serviço secreto britânico espalhados pelo mundo. Devido a uma decisão urgente, Bond acaba se afastando temporariamente do serviço. Depois disso, por conta de um atentado terrorista causado pelo criminoso que roubou a tal lista, M (Judi Dench) está às voltas com, Gareth Mallory (Ralph Fiennes), representante do governo, que está insatisfeito com os últimos trabalhos realizados pela agência.

                Na busca pelo bandido, James Bond acaba indo parar na China e em seguida em Macau. Lá ele conhece Sévérine (Bérénice Marlohe), a bondgirl mais sem graça dos últimos tempos, que possui informações que podem fazê-lo chegar ao chefe da operação criminosa por trás do roubo. Toda a sequência em Macau, diga-se, é completamente dispensável para o desenvolvimento da trama, parecendo ter sido feita apenas para demonstrar o potencial físico de Craig.

                Silva (Javier Bardem) surge como o personagem melhor trabalhado do filme, pois até a sua origem e motivações são organicamente exploradas. Um vilão fantástico, ao mesmo tempo ameaçador e afeminado e alguém que parece sempre ter o controle da situação. Ele personifica bem o terrorista virtual, como na cena em que pergunta qual golpe Bond gostaria de operar.        

                As atuações são bastante competentes, com destaque para a participação de Albert Finney como Kincade, alguém do passado de Bond, que surge no terceiro ato, e Judi Dench, uma vez que M ganha um destaque nunca antes visto em filmes do espião. Também chama a atenção a primeira aparição de Q (Ben Whishaw), já que aqui ele é retratado como um jovem, ao contrário dos episódios anteriores.

                As cenas de ação são extremamente bem trabalhadas, porém chegando a níveis de exagero dos tempos de Pierce Brosnan, como a sequência inicial, ao mesmo tempo atingindo momentos de grandiosidade, como o ataque à mansão no terceiro ato. Já as cenas de luta, apesar de bem coreografadas chegam a ser repetitivas, pois todo o repertório de golpes de Bond é explorado à exaustão em todas as cenas.

                Apesar de competente em criar cenas de ação, a trama acaba fugindo de alguns elementos sempre presentes nas aventuras do espião, fazendo com que não existe o clima clássico de 007, muitas vezes lembrando mais filmes como Missão Impossível ou Duro de Matar, no melhor estilo “exército de um homem só”, o que acaba fazendo que a obra perca o seu charme tradicional.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

OS CANDIDATOS



OS CANDIDATOS



David Arrais

     Especialista em dirigir comédias baseadas em estereótipos, Jay Roach, que conquistou os fãs de comédia rasgada com “Austin Powers”, e depois se perdeu um pouco com o segundo episódio da franquia “Entrando Numa Fria”, nos apresenta essa divertida visão das campanhas políticas para o congresso americano.

     Não havia época melhor para esse filme estrear no Brasil. Will Ferrel e Zach Galifianakis personificam bem todos os estereótipos dos políticos da atualidade: Demagogia, populismo, discursos decorados e imagem e propaganda acima das propostas. Curiosamente, algo que vem acontecendo aqui em Fortaleza, na disputa do 2º. Turno.

     Cam Brady (Will Ferrel) é o candidato democrata a deputado por uma pequena cidade da Carolina do Norte. Nas últimas quatro eleições, Brady não teve concorrente. No entanto, os irmãos Motch (John Lithgow e Dan Akroyd), grandes especialistas em marketing político, precisam de um deputado em seus bolsos para aprovar um punhado de leis e implantar fábricas chinesas em território americano.

     O candidato escolhido pelos irmãos é Marty Huggins (Zach Galifianakis), filho de um experiente figurão local. Porém, ele está longe de ser um candidato ideal. Diante disso, sua vida sofre uma mudança radical, para que os marqueteiros do partido, liderados por Tim Wattley (Dylan McDermott) possam transformá-lo em alguém elegível.

     As sequências cômicas são sensacionais. Desde o prólogo, com as campanhas de Cam Brady, que sempre repete o mesmo bordão (espinha dorsal da América) para todo tipo de público, até a sequência em que Marty avisa a sua família que será candidato, arrancando inspiradas confissões de sua família.

     Will Ferrel nos entrega mais um personagem marcante, como Ron Burgundy e Ricky Bobby. Fugindo um pouco (bem pouco mesmo) de seus exageros típicos, ele constrói um cAm Brady seguro, autoconfiante, arrogante e desbocado. É curioso como em momento algum ele parece perceber que o único motivo pelo qual está em seu quarto mandato, é pura e simplesmente a falta de concorrentes.

     Ao mesmo tempo, Cam mostra que sabe jogar o jogo, sempre mantendo as aparências: corte de cabelo e barba sempre impecáveis, sorriso estampado uma família tipicamente perfeita, além de saber usar todas as técnicas necessárias nos debates.

     Já Galifianakis se mostra um adversário a altura no confronto com Will Ferrel. Seu marty Huggins nos faz esquecer completamente seu Alan de Se Beber, Não Case.  Com um jeito afetadíssimo, ele parece uma criança grande. Ingênuo, inseguro, sempre baixando a cabeça para os caprichos do pai. Ao mesmo tempo, um pai de família carinhoso e marido devotado. É curioso, e ao mesmo tempo, lamentável, ver como ele é manipulado facilmente por todos ao seu redor. Até mesmo por seu adversário, nos primeiros debates.
            
     Dylan McDermott interpreta o marqueteiro político por excelência. Inescrupuloso, capaz de tudo para construir a imagem perfeita para Marty, inclusive mudar seus animais de estimação, a mobília da casa e a aparência de sua família.
      
     Um dos pontos altos da projeção é a aposta no politicamente incorreto. Crianças falando palavrões, frases preconceituosas e xenofóbicas, pancadas em bebês. O ponto alto é a agressão a um importante ator de um filme ganhador de um Oscar recente. Também são acertadas as inserções de imagens de analistas políticos de telejornais locais, mostrando que nem sempre são noticiados os fatos verdadeiramente relevantes.

     Diante de tudo isso, o filme consegue fazer uma crítica eficiente do sistema eleitoral vigente, não só nos Estados Unidos, além de sua ligação com a imprensa e a mídia de um modo geral. 

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Gonzaga – De Pai Pra Filho

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David Arrais

                Em 1912 nascia em Exú, pequena cidade no interior de Pernambuco, aquele que se tornaria o maior nome da música popular brasileira. Seu nome era Luiz Gonzaga do Nascimento. Filho de Januário, sanfoneiro que tocava numa sanfona de apenas oito baixos. Eis que 100 anos depois, Breno Silveira, depois de emocionar o público com 2 Filhos de Francisco acerta mais uma vez, mostrando coragem e talento, ao contar a história desse homem.

                Desenvolvido a partir de uma gravação feita por Gonzaguinha no reencontro com seu pai, o roteiro desde o início nos mostra a relação conflituosa entre Luiz Gonzaga (Adélio Lima) e Gonzaguinha (Júlio Andrade), com este último mostrando toda a sua mágoa do pai, figura sempre ausente durante seu crescimento, deixando que um casal de amigos, Henrique Xavier (Luciano Quirino) e Dina (Sílvia Buarque) o criassem.

                Sempre se utilizando de flashbacks e flashforwards, somos levados à sua adolescência (interpretado por Land Vieira), quando conheceu Nasinha (Cecília Dassi), o grande amor de sua vida ao pé de um Juazeiro, passando por sua vida adulta (Nivaldo Expedito de Carvalho) conturbada, o serviço militar, casamentos, filhos, longuíssimas turnês por grandes cidades, e, quando na decadência, pelo interior do Brasil.

                O filme mostra várias pequenas histórias de Gonzaga, como sua primeira aparição em público, um conflito com o coronel e pai de Nasinha, a forma que começou a tocar no Rio de Janeiro, sua passagem pelo Exército e a forma como conseguia escapar das batalhas numa época cheia de revoluções, como conheceu Odaleia (Nanda Costa), mãe biológica de Gonzaguinha, as aparições no programa de rádio de Ary Barroso, um inusitado recrutamento de músicos e o acidente que lhe deu a cicatriz que leva no rosto. Tudo isso sem soar episódico, perfeitamente bem costurado, sem perder o ritmo.

     As reconstruções de época (o filme passa por várias décadas) são impecáveis, como ao mostrar o desenvolvimento do Morro de São Carlos, onde Gonzaguinha cresceu com seus pais de criação, as várias casas de Gonzagão no Rio de Janeiro até a casa de Januário em Exú, passando pelo estúdio de Ary Barroso e a feira popular em Pernambuco.

     No pequeno apartamento da Ilha do Governador, em que o músico vive agora com Helena, sua segunda esposa e com o filho mais famoso, é onde os conflitos entre eles tornam-se mais fortes, pois Gonzaguinha, além de estudante de economia tornou-se entusiasta dos movimentos revolucionários, como o Black Power/Panteras Negras e o comunismo, como mostram os livros e pôsteres nas paredes de seu minúsculo quarto.

     Outros temas também são tratados, como a suspeita de esterilidade de Luiz Gonzaga, o relacionamento turbulento de Helena, sua segunda esposa e Gonzaguinha. Infelizmente, sua faceta de mulherengo não é mostrada abertamente, sendo apenas citada por uma publicação ao longo do filme, sem receber o aprofundamento que merecia.

      O elenco funciona perfeitamente. Cláudio Jaborandy tem uma atuação brilhante como Januário ao lado de Santana (Cyria Coentro). Cecília Dassi encanta como a jovem Nasinha e João Miguel mostra talento na curta cena que marca o início da carreira de Gonzagão.

      No entanto, toda a força do filme reside em seus protagonistas. Nivaldo Expedito de Carvalho é o único intérprete de Luiz Gonzaga que deixa um pouco a desejar, com momentos um pouco exagerados, passando um pouco da conta. Mas sem jamais comprometer. Ainda mais levando-se em conta que se trata de um músico, não de um ator profissional. Land Vieira consegue equilibrar momentos tristes e tensos com alívios cômicos na mesma proporção.

       Já Adélio Lima e Júlio Andrade dão um show à parte. A química entre os atores é perfeita. E a semelhança física de Júio Andrade com Gonzaguinha chega a ser assustadora. O modo como proferem suas falas, seja com mágoa, ternura, arrependimento, rancor, ou em sua redenção, é extremamente convincente. Os maneirismos, intonação da voz, vocabulário, são todos realizados com maestria. Realmente nos convencem que se trata de um reencontro carregado de emoções entre pai e filho a muito separados.

       A conclusão não poderia ser diferente, com a introdução do show “A vida do viajante”, usando imagens reais da primeira vez que os dois artistas sobem juntos ao palco. A minha maior preocupação quando soube que haveria um filme sobre Luiz Gonzaga era o risco de um endeusamento que mascarasse o ser humano que ele era. Alguém que, apesar de um grande artista, apenas humano, e cheio de falhas como todos nós. Felizmente isso não aconteceu.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Intocáveis

INTOCÁVES



David Arrais

                É sempre perigoso assistir a um filme depois de muito tempo da sua estreia. Eu não consigo deixar de criar expectativas, boas ou ruins, dependendo dos rumores. O pior é quando as boas expectativas não são alcançadas, mesmo com um bom resultado final, como aconteceu em Intocáveis.

                Escrito e dirigido por Olivier Nakache e Eric Toledano, Intocáveis conta a história de Phillipe (François Cluzet), um milionário francês que ficou tetraplégico depois de um acidente de parapente, e Driss (Omar Sy), um jovem negro, descendente de africanos, que, se torna seu acompanhante/enfermeiro.

                Cluzet e Sy mostram uma química perfeita, criando uma dinâmica interessante entre os protagonistas. A amizade entre eles é contruída gradualmente, de forma orgânica, sem apelar para melodramas, que não caberiam na atmosfera do longa. Infelizmente, a construção dessa amizade acaba sendo prejudicada pelo início da projeção, pois ao fim da primeira cena (um pequeno flash-foward com uma inusitada travessia de carro pelas ruas de Paris), já sabemos da cumplicidade que existe entre os dois, então, o filme parece nos contar uma história que já sabemos como termina.

                A história é recheada de cenas tocantes, como o aniversário de Philipe, em que Driss promove um show de dança à parte, ou o seu cuidado, na cena em que oferece um remédio “pouco ortodoxo” para aliviar a dor do amigo ou ao se recusar a levá-lo no porta-malas de uma mini-van, “como uma mala”.

E mesmo não se tratando de uma comédia, existem ainda cenas divertidíssimas, como a já citada cena inicial, o momento emq eu Driss “testa” a sensibilidade do chefe, ou as piadas politicamente incorretas que eles trocam durante todo o longa, como “Onde você encontra um tetraplégico? – No mesmo lugar onde deixou”.  

Apesar de, no modo geral, tratar-se de uma obra bem realizada, o roteiro possui alguns problemas, como focar exclusivamente em Driss e Phillipe, deixando de lado alguns personagens potencialmente interessantes, como a mãe de Driss, ou a governanta ou a secretária de Phillipe. E também ao ignorar solenemente personagens que nunca dizem a que vieram, como a filha de Phillipe e seu namorado.

          Desde o início a Fotografia trabalha acertadamente com a Direção de Arte para ilustrar a diferença que existe nos mundos dos protagonistas. A vida de Driss é sempre mostrada com cores frias, escuras, ambientes claustrofóbicos. Já a vida de Phillipe, apesar de sua deficiência, é vista com cores quentes, iluminada (especialmente com luz natural), e a casa com ambientes amplos e bem cuidados. O momento em que esse contraste torna-se mais evidente é na hora do banho de Driss. Quando em casa, ele toma banho com várias crianças entrando e saindo do banheiro, em uma banheira minúscula, que mal comporta seu corpo. Na casa de Phillipe, seu banheiro é quase do tamanho do apartamento de sua mãe.

           Ao final, me senti tocado pela bela história que acabei de conhecer. Mas não pela forma que ela foi contada, pois não pude deixar de ter a impressão de já “ter visto isso antes” em outros filmes, ainda melhores, como Rain Man ou Tempo de Despertar.    

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Looper

LOOPER






David Arrais 

          Escrito e dirigido por Rian Johnson, Looper conta uma história ambientada em 2044, quando grande parte da população possui poderes de telecinese e a viagem no tempo, é algo real. Porém, além de ilegal, ela só será realidade no ano de 2074. Nesta época, mafiosos, liderados pelo misterioso Rainmaker, utilizam a viagem para se livrar de inimigos, enviando-os para o passado, onde assassinos (Loopers) estão à espera, em locais pré-determinados, para executá-lo. Para que o plano seja perfeito, depois de 30 anos o próprio looper é enviado ao passado para ser executado por ele mesmo quando jovem.

          O conceito de viagem no tempo, por conta de seus paradoxos, é sempre complexo. Por conta disso, toda a trama é explicada em um pequeno prólogo narrado por Joe (Joseph Gordon-Levitt). Pouco depois somos apresentados a Seth (Paul Dano), outro looper, que também é o melhor amigo de Joe. Tudo começa a dar errado quando a versão do futuro de Joe (Bruce Willis) decide não cumprir o combinado, além de fugir do Joe jovem, planeja modificar o futuro alterando momentos fundamentais no presente.

          Depois que passam a conviver, o velho Joe explica suas motivações ao jovem, que, tenta, em vão, impedir que ele fuja para tentar cumprir seus objetivos. Depois disso, ao ser perseguido pelos demais loopers, o jovem acaba indo parar na fazenda de Sara (Emily Blunt), que vive com seu filho Cid (Pierce Gagnon).

          Pela complexidade do tema, o roteiro acaba tendo que apelar para algumas passagens expositivas, como as consequências de um looper desistir do contrato, ou de haver dois loopers de diferentes eras coexistindo, como em uma explicação bastante razoável em um diálogo entre Abe (Jeff Daniels) e Kid Blue (NoahSegan) “Não tente entender as consequências. Vai fritar seus miolos!”

          O filme conta com sequências de ação excepcionais, com efeitos visuais sempre bem realizados. Merecem destaque a cena no interior da casa de Sara, no terceiro ato, a invasão do esconderijo dos mafiosos e a sequência final, na plantação de cana.

          O roteiro também conta com diálogos preciosos, como quando um personagem avisa “Mude para a China. Confie em mim, eu vim do futuro”, ou toda a cena entre o velho e jovem Joe na lanchonete. Infelizmente ele cai um pouco ao explorar a característica singular de Cid, especialmente no terceiro ato, fugindo um pouco do tema principal.

          As atuações são bastante convincentes. Joe é um personagem complexo, consciente que a vida que leva tem um tempo pré-definido de duração, que acaba tornando-o amargo, frio, vicidado em drogas, sempre evitando maior proximidade com qualquer pessoa, exceto a prostituta Suzie (Piper Perabo), porém todas as suas investidas são em vão.

          Bruce Willis e Joseph Gordon-Levitt funcionam muito bem juntos. Willis abusa, no bom sentido, de todos os trejeitos que lhe transformaram em astro de ação, protagonizando também um grande momento, ao ficar profundamente afetado por um ato terrível que acaba de cometer.

          Já Levitt faz uma excelente interpretação de Bruce Willis jovem, com todos os seus maneirismos, como a voz rouca e o sorriso de canto de boca, auxiliado pelos efeitos visuais e de maquiagem que colaboraram nas semelhanças físicas, como o nariz, olhos e boca.

          A reaparição de Jeff Daniels em blockbusters é uma grata surpresa, como o enviado do Rainmaker para “manter a ordem” no tempo presente. Noah Segan interpreta um looper incompetente, sempre tentando agradar Abe acima de qualquer outra coisa. Garret Dilahunt tem uma participação rápida, porém em uma passagem fundamental. Qing Xu também aparece pouco, como a esposa de Joe no futuro.

          No entanto, Emily Blunt é quem mais merece destaque. Sara é uma mulher forte, decidida, e ao mesmo tempo frágil e solitária, o que lhe confere grande profundidade. Vivendo uma convivência conflituosa com seu filho Cid, é perceptível a sua confusão por não saber lidar com os problemas dele.

          Tecnicamente o filme é impecável. A construção das cidades no futuro é impressionante, mostrando um possível (ou provável) destino das cidades americanas diante da deterioração da sociedade e de seus valores, fazendo um contraponto com o desenvolvimento exibido em Xangai.

          A direção de arte chama a atenção também em ambientes internos como o apartamento do jovem Joe, ou a casa chinesa que ele possui no futuro. Outro aspecto em que ela é bastante eficaz é em relação aos equipamentos, como as armas e veículos, em especial a moto voadora.

          A montagem também tem papel fundamental, sempre mantendo o ritmo alto, sem tornar mais confuso que o necessário, ao mesmo tempo em que “brinca” em alguns momentos com as alterações causadas pelas alterações no espaço-tempo.

          É sempre gratificante quando um filme que tinha tudo para ser um blockbuster de ação nos surpreende com um ótimo roteiro e grandes atuações. E Looper é mais uma prova de que é possível unir esses elementos e realizar uma obra de entretenimento de alta qualidade.