VALENTE
David Arrais
A
Pixar é um estúdio que até 2011 se notabilizava pela incrível capacidade de
produzir filmes que além de sucessos de bilheteria, eram grande sucesso de
crítica. Alguns dos motivos para tal sucesso eram a criatividade e a coragem
com que os roteiros eram desenvolvidos, sem nunca apelar para fórmulas batidas.
Infelizmente, Carros 2 veio mostrar que
as coisas estavam mudando por lá. E agora, Valente,
veio confirmar essa mudança, com a proposta de apresentar a sua primeira
princesa.
Valente conta a história de Merida,
filha mais velha do Rei da Escócia, que, ao atingir a idade, se vê obrigada a
escolher quem será seu noivo. No entanto, desde criança ela demonstra não ter a
menor “vocação” para acabar como sua mãe, que, do seu ponto de vista, tem como
única razão de vida preparar a filha para a vida de esposa/rainha. Quando
resolve não seguir a tradição, ela acaba contratando os “serviços” de uma
bruxa, que pratica um feitiço de consequências potencialmente desastrosas.
A família de
Merida é bem explorada pelo roteiro, desde a retidão e rigidez de Elinor, sua
mãe, ao afeto dispensado a ela por Fergus, seu pai, além de sua bravura e
altruísmo, passando pelas traquinagens de seus pequenos irmãos trigêmeos.
Assim como
ocorreu em Os Incríveis, os
personagens humanos, talvez pela complexidade da modelagem, são estilizados,
chegando a parecerem caricaturas (como a criada da família, ou os pais dos
pretendentes da princesa) diferentemente do que acontece nos filmes baseados em
captura de movimento. Mas, de forma alguma isso enfraquece a credibilidade
naqueles personagens, chegando a aumentar a afeição que podemos sentir por
eles.
A fraqueza do
roteiro (escrito por quatro roteiristas, quase sempre um mau sinal) é acentuada
pela quantidade de “reviravoltas”, e uma lenda que, além de batida, não
acrescenta muito à história, servindo apenas para justificar a existência do
“vilão” do filme.
A história
ainda conta com outros clichês como “você deve escolher seu destino”, animais
engraçadinhos, músicas sobre sonhos e superações, e também vários elementos
presentes em outras produções Disney: o corvo negro (A Bela Adormecida) e a
vassoura encantada da bruxa (Fantasia); a amizade da heroína e seu cavalo e uma
caçada a um monstro (A Bela e a Fera); o prazo para que se acabe o feitiço (A pequena
Sereia); a transformação de membros da família (Irmão Urso). Não existem
aqueles arroubos de criatividade
característicos Pixar.
Porém,
o que falta de criatividade e esmero no roteiro, sobra nos aspectos técnicos. A
geografia da Escócia é extremamente bem recriada, com suas montanhas, rios e
vários tipos de vegetação. Os movimentos das plantas e cabelos com o vento é
bastante realista. Assim como as texturas das roupas, dos pelos dos animais, de
peças de mobiliário de madeira ou de rochas, que também são convincentes.
A direção de
arte também é eficiente, retratando desde o interior do castelo do Rei, com
seus salões enormes, passagens secretas “exploradas” pelos trigêmeos e o quarto
de Merida que refletem bem a sua personalidade (a sua cama, que é “vítima” de
suas frustrações é vista com várias lascas arrancadas) à casinha da bruxa, passando
também pela “releitura” de Stonehenge.
As
cenas de ação são bem elaboradas, pecando apenas na luta final que, apesar de
tensa e bem executada e coreografada (chegando a ser superior a uma cena
semelhante do filme A Bússola de Ouro),
é comprometida pela falta de luz da cena, que ocorre à noite.
Mesmo
que antes tenha realizado trabalhos de temas explorados por outros estúdios,
como um herói improvável, lições de humildade, inimigos que se tornam amigos, ou
mesmo super-heróis, sempre havia um sopro de novidade. Infelizmente, ao se
render às fórmulas de mercado, a Pixar parece ter esquecido que ao fugir disso havia
criado a sua própria fórmula de sucesso.
