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sábado, 19 de janeiro de 2013

DETONA RALPH


DETONA RALPH (Wreck It Ralph) 
David Arrais

         Detona Ralph, nova animação da Disney dirigida por Rich Moore, conta a história de Ralph, o vilão do jogo de fliperama Conserta Félix, que começa a desgostar da ideia de ser vilão. Em busca de reconhecimento como um “cara legal”, ele percorre vários outros jogos, e acaba indo parar no arcade Corrida do Açúcar, onde conhece a pequena Vanellope, e acaba pondo em risco a existência dos dois videogames.

         Desde o início, é possível perceber que participaremos de uma grande viagem pelo mundo dos games, com o trecho do Mickey marinheiro todo pixelado, como nos primeiros jogos eletrônicos. A partir daí, conhecemos o nosso protagonista, e seu adversário Félix, desde a origem do seu jogo (através do vídeo de demonstração da própria máquina) até a evolução dos demais jogos ao seu redor na loja de fliperama durante 30 anos.

        Durante a noite, em um clima que mistura Toy Story e Uma Cilada para Roger Rabbit, os personagens dos jogos saem de suas máquinas e se encontram na Estação Central dos Jogos, podendo viajar de uma máquina para outro. O drama do protagonista é contado em uma curiosa sessão de um grupo de apoio, onde vilões de vários jogos, como Bowser do Super Mario Bros, um zumbi, Kano do Mortal Kombat, Zangief (não necessariamente um vilão) e M. Bison do Street Fighter, Robotnik do Sonic, o Fantasma do Pacman, contam suas desventuras e sofrimento por sua condição de vilões.

          Chama à atenção toda a construção da mitologia que envolve o mundo daquele fliperama: o medo da “população” que suas máquinas entrem em manutenção, a importância de não interferirem nos personagens controlados pelos jogadores humanos, o medo de que alguém “Vire Turbo”, um personagem sofre de pixelexia, “doença” que faz com que ele fique sofrendo panes durante o jogo, a senha para um cofre é o mais famoso código de videogames e o conceito de Retrô, tão em voga ultimamente.

          Mesmo não sendo um grande conhecedor de videogames, pude perceber dezenas de referências a jogos antigos, e mais recentes, além dos citados no “grupo de apoio”, como Call Of Duty, Halo, Super Mario Kart e também referências à cultura pop/internet (Mentos + Coca Cola Diet, quantas lambidas são necessárias para se chegar ao centro de um doce, o DJ de suma das festas é Skrillex) e até mesmo a filmes, como Alien, Superman, Wall-e e King Kong.  

         Mas, as referências a games não param nas citações. O movimento dos personagens dos jogos antigos, como do próprio Conserta Félix, são semelhantes aos dos arcades, além dos efeitos sonoros referentes aos seus movimentos.

O visual de alguns lugares, como o interior do edifício onde ocorre o jogo é sempre formado por linhas ortogonais, para dar o visual pixelado. Por tudo isso, é marcante o momento em que um personagem antigo vê alguém de um jogo de última geração e diz: “A alta definição do seu rosto é incrível”.

A trilha sonora, composta por Henry Jackman, que alterna sons do tempo dos videogames 8 bits com temas simples, conseguindo transmitir bem o sentimento de cada cena, é espetacular, contando ainda com excelentes canções como Shut Up and Drive e sugar Rush.

          Os personagens são extremamente cativantes, com suas motivações muito bem definidas. A pequena Vanellope chega a ser tão encantadora quanto a Boo de Monstros S.A., e sua relação com Ralph é convincente desde o começo. O Rei Doce também é um vilão fantástico e carismático, sem nunca soar maniqueísta.  Félix tem um ar ingênuo, frágil e quase infantil, o que acaba justificando a facilidade com que se apaixona pela oficial Calhoun, uma mulher forte e de intimidadora.

           Mas, o grande destaque fica mesmo por conta de Ralph. Carismático e tridimensional, é curioso ver seu sofrimento e a sua jornada em busca de reconhecimento e aceitação própria, como em uma das cenas mais fortes do filme, em que ele precisa usar seu “único talento” para convencer outro personagem a mudar de ideia. E ainda possui uma característica rara em animações: ele é o personagem mais divertido, deixando para os coadjuvantes o papel de “escada” para as piadas.

           Divertido na medida certa, alternando excelentes momentos dramáticos (o ápice do bullying que Vanellope sofre das outras corredoras é tão agressivo quanto das irmãs da Cinderela), Detona Ralph é mais uma grande produção Disney, assinada com todo o talento do gênio John Lasseter, podendo figurar em pé de igualdade com outros grandes clássicos do estúdio.              


P.S. 1: A cena dos créditos é fantástica, mostrando Ralph e Vanellope passando por vários jogos como Wolf, Street Fighter, Doom e outros que a minha ignorância no assunto não permitiu idenitificar.

P.S. 2: Por não haver cópias legendadas em Fortaleza, tive que assistir a versão dublada. O trabalho é fraquíssimo, quase nos tirando a atenção do que está acontecendo na tela. Fiquei curioso para ver o trabalho de John C. Reilly, Sarah Silverman, Jack McBrayer e Jane Lynch na versão original.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

A Origem dos Guardiões


A ORIGEM DOS GUARDIÕES (Rise of the Guardians)
David Arrais

Depois de “filmes” como A Garota da Capa Vermelha, A Branca de Neve e o Caçador e A Fera, sempre que alguém fala em reinvenção de personagens infantis ou de contos de fada, o medo de que ocorra mais uma “Crepusculação” vem à tona em doses cavalares.

Felizmente, a nova animação da Dreamworks, A Origem dos Guardiões além de um divertidíssimo conto de fadas, nos leva também a questionamentos maiores, como “Qual o nosso lugar no mundo”, sem nunca perder o ritmo e o clima fantasioso.

Neste filme, primeiro trabalho do diretor Peter Samsey para o cinema, os personagens das grandes mitologias infantis, Papai Noel, Coelho da Páscoa, Fada do Dente e Sandman (entidade responsável pelos sonhos, sem equivalente ou relevância na cultura brasileira) precisam da ajuda de um novo guardião, Jack Frost, para enfrentar o Bicho Papão, que quer causar a descrença das crianças nesses seres, na época da Páscoa.

          A caracterização dos Guardiões é muito criativa, fugindo do estereótipo que existe no imaginário popular. Papai Noel é um homem forte, tatuado, quase intimidador, que conta com a ajuda de Yetis e dos elfos na fábrica de brinquedos. A Fada do Dente é uma workaholic, sempre preocupada com o trabalho das fadinhas em seus depósitos. O Coelho da Páscoa é um guerreiro musculoso, valente e sem papas na língua, responsável pelo mundo encantado onde são feitos os ovos de páscoa. A sua falta de tato também acaba por criar conflitos com quase todos os guardiões. Sandman tem feições infantis, sendo composto da mesma areia que utiliza para construir os sonhos.

      Jack, além de protagonista, também é o personagem mais interessante e complexo. Ele é o responsável pelo inverno e se é feliz com isso, porém, não se sente completo. Primeiro por não ser reconhecido pelas crianças como os demais, e também por não entender suas motivações. Os motivos que o levaram a assumir aquela posição, até se tornar um guardião.

         Já o Bicho Papão acaba por se tornar um vilão igualmente interessante, com motivações intensas, palpáveis, familiares, o que gera uma identificação com o público. Os seus confrontos com Jack são sempre intensos, tanto de forma física como verbal, pois os dois dividem dramas pessoais semelhantes.

      O desenvolvimento da história segue sempre sem perder o ritmo, mesmo em momentos com muitos diálogos, alternando o clima leve de fantasia com momentos tensos, mas também com inserções cômicas, como a transformação do Coelho da Páscoa, o trabalho nem sempre reconhecido de um dos Yetis, e os momentos em que o Sandman, que não fala, perde a paciência por não receber a devida atenção, ou a corrida pelos dentes, que culmina na divertidíssima briga pelo dente de Jamie.

     Jamie, inclusive, é o principal dos personagens humanos, que são sempre crianças, e possui participação fundamental no terceiro ato, uma vez perpetuação da crença infantil é fundamental para a existência dos Guardiões.

        O filme ainda conta com citações sutis de grandes filmes como Star Wars (o momento em que o trenó do Papai Noel chega à terra da Fada do Dente é muito parecida com a chegada da Millenium Falcon a Alderaan), O Senhor dos Anéis, Hércules (a fisionomia do bicho Papão é semelhante à de Hades) entre outros. A Direção de Arte realiza um trabalho fantástico, com a construção dos mundos mágicos liderados por cada guardião. Os efeitos 3D são grandiosos, não sendo usados apenas para arremessar objetos no espectador, mas conferem a emoção e profundidade necessária a cada cena. A trilha sonora de Alexandre Desplat é incrível, construindo um tema marcante (como eu não via desde Os Incríveis) que se repete sem ser monótono, variando de ritmo de acordo com a emoção que é retratada em cada cena.

Infelizmente, nem tudo são flores. O filme possui dois furos no roteiro, sendo que um deles prejudica bastante o desfecho da trama, com o reaparecimento de um personagem sem nenhuma explicação.

          Mas, apesar desses problemas, não nada que prejudique a mensagem que o filme quer passar: A melhor maneira de sermos felizes é descobrirmos a nossa função no mundo, e aprendermos a aceitá-la.  

P.S.: Quem me conhece, sabe o que penso sobre dublagem, mas tenho que dar o braço a torcer. O trabalho de dublagem é simplesmente sensacional.